{"id":5840,"date":"2022-12-02T09:59:38","date_gmt":"2022-12-02T12:59:38","guid":{"rendered":"https:\/\/hml.artica.capital\/asset-cartas\/nuvens-negras-no-horizonte\/"},"modified":"2022-12-02T09:59:38","modified_gmt":"2022-12-02T12:59:38","slug":"nuvens-negras-no-horizonte","status":"publish","type":"cartas","link":"https:\/\/hml.artica.capital\/en\/asset-cartas\/nuvens-negras-no-horizonte\/","title":{"rendered":"Nuvens negras no horizonte"},"content":{"rendered":"<p>Dear investors,<\/p>\n\n\n\n<p>Neste \u00faltimo m\u00eas, o IBOV caiu 2%, mas a queda foi bem pior do que aparenta, pois esse valor est\u00e1 mascarado pelo movimento de VALE3, que corresponde a 18% da carteira do \u00edndice e subiu 28%, na contram\u00e3o do mercado. Excluindo VALE3, o IBOV teria ca\u00eddo 9% em novembro.<\/p>\n\n\n\n<p>O principal motivo da queda \u00e9 o receio com a pol\u00edtica fiscal do novo governo, que tem deixado clara a sua inten\u00e7\u00e3o de aumentar os gastos do Estado em programas sociais, mas ainda n\u00e3o soube explicar de onde viriam os recursos extras para isso. Assim, o cen\u00e1rio esperado pelo mercado \u00e9 de aumento do d\u00e9ficit do governo, com consequente aumento do endividamento p\u00fablico e dos juros. Com juros altos, o crescimento da economia fica comprometido e as a\u00e7\u00f5es perdem valor. O cen\u00e1rio realmente parece tenebroso, mas \u00e9 preciso coloc\u00e1-lo em perspectiva antes de criar opini\u00f5es fortes sobre como isso reflete em investimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossa carta de outubro, comentamos sobre o sistema de governo do Brasil, j\u00e1 na carta de novembro exploramos a posi\u00e7\u00e3o do Brasil na economia global. Com esse pano de fundo, elaboraremos nossa vis\u00e3o sobre os fatos mais recentes do mercado brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A PEC da Transi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos primeiros atos do novo governo foi propor ao Congresso Nacional (atrav\u00e9s de acordos com os presidentes da C\u00e2mara e do Senado) uma PEC para permitir que o poder executivo pudesse gastar ~R$ 198 bilh\u00f5es por ano, al\u00e9m do que seria permitido pelo teto de gastos, ao longo de todo o mandato do Lula. Desse valor, R$ 175 bilh\u00f5es seriam referentes ao Bolsa Fam\u00edlia nos termos prometidos em campanha, e os demais R$ 23 bilh\u00f5es poderiam ser gastos em investimentos, mas apenas em caso de arrecada\u00e7\u00f5es acima do previsto no or\u00e7amento de 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>Para dar a estes n\u00fameros a devida propor\u00e7\u00e3o, o or\u00e7amento fiscal do governo para 2023, excluindo os valores relacionados \u00e0 seguridade social e ao refinanciamento da d\u00edvida p\u00fablica, \u00e9 de ~R$ 1,9 trilh\u00f5es. Assim, a proposta batizada de \u201cPEC da Transi\u00e7\u00e3o\u201d autorizaria um aumento real de ~9% nessas despesas do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema dessa PEC \u00e9 que o novo governo est\u00e1 pedindo permiss\u00e3o para gastar mais sem deixar claro de onde viriam os recursos para bancar essas despesas extras. Por\u00e9m, as alternativas s\u00e3o conhecidas. H\u00e1 tr\u00eas principais fontes poss\u00edveis: i) aumento da arrecada\u00e7\u00e3o de impostos; ii) emiss\u00e3o de moeda nova (imprimir dinheiro); ou iii) aumento da d\u00edvida p\u00fablica. Vamos considerar cada uma dessas possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Aumento de arrecada\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>S\u00f3 h\u00e1 dois meios de aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos: aumentar as al\u00edquotas ou contar com o crescimento real da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a carga tribut\u00e1ria gira em torno de 34% do PIB, um patamar j\u00e1 alto (a dos EUA, por exemplo, \u00e9 ~24%). Assim, aprovar aumentos de impostos tende a ser um processo politicamente bastante desgastante, especialmente para o novo Congresso, em que a maior parte dos deputados e senadores foram eleitos com discursos opostos a esse movimento. N\u00e3o \u00e9 um caminho imposs\u00edvel, mas a carga tribut\u00e1ria no Brasil se manteve relativamente est\u00e1vel ao longo dos \u00faltimos 10 anos, entre 32-34%, mesmo em momentos em que o Poder Executivo certamente gostaria de aumentar a sua arrecada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, o crescimento da economia seria a alternativa ideal e parece ser a esperan\u00e7a do novo governo, mas depende de muitos fatores fora do controle do Estado, ent\u00e3o contar com isso tem seu risco. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 similar \u00e0 de uma empresa que decide aumentar suas despesas na expectativa de gerar novas receitas: o gasto extra \u00e9 sempre garantido, mas a receita extra n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Emiss\u00e3o de moeda<\/h2>\n\n\n\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, o Estado poderia imprimir dinheiro novo e us\u00e1-lo para pagar suas despesas. Como emitir moeda n\u00e3o cria valor econ\u00f4mico real, o efeito pr\u00e1tico deste movimento \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o, pelo Estado, de uma parte do valor do dinheiro em circula\u00e7\u00e3o na economia. \u00c9 como se o controlador de uma empresa emitisse novas a\u00e7\u00f5es para si pr\u00f3prio, sem contrapartida nenhuma, diluindo os acionistas minorit\u00e1rios e reduzindo o valor individual de cada a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O uso desse mecanismo \u00e9 sempre tentador para um governo, pois a popula\u00e7\u00e3o geral entende pouco sobre como ele funciona e costuma aceitar mais facilmente a infla\u00e7\u00e3o resultante da emiss\u00e3o de moeda do que um aumento expl\u00edcito de impostos. Se o governo for livre para imprimir dinheiro quando quiser, tende a abusar desse mecanismo e causar crises hiperinflacion\u00e1rias. O Brasil conviveu com infla\u00e7\u00e3o alta desde meados da d\u00e9cada de 70 at\u00e9 1994, quando o Plano Real foi criado e conseguiu estabilizar a moeda do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o dos bancos centrais est\u00e1 relacionada com a necessidade de controlar a emiss\u00e3o de moeda para que a economia n\u00e3o entre nessa espiral negativa causada pela pr\u00e1tica de emitir moeda para financiar gastos p\u00fablicos. O Banco Central do Brasil (BCB) foi criado em 1965, mas passou por um longo processo de amadurecimento at\u00e9 atingir, muito recentemente, o que s\u00e3o consideradas boas pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 1988, o papel do BCB se confundia com o do Banco do Brasil, o que reduzia muito a inger\u00eancia do BCB sobre a pol\u00edtica monet\u00e1ria do pa\u00eds. At\u00e9 2020, o BCB estava vinculado ao Minist\u00e9rio da Economia e, por consequ\u00eancia, sob o Poder Executivo, que podia substituir o presidente do BCB a qualquer momento e ditar a pol\u00edtica monet\u00e1ria do pa\u00eds. S\u00f3 em fevereiro de 2021 \u00e9 que nosso banco central se tornou independente. Agora, o presidente do BCB cumpre mandatos de 4 anos, que come\u00e7am no in\u00edcio do 3\u00ba ano de mandato do Presidente da Rep\u00fablica e se estende at\u00e9 o final do 2\u00ba ano de mandato do pr\u00f3ximo Presidente da Rep\u00fablica. Essa autonomia rec\u00e9m concedida ao BCB foi um passo importante, por impedir que o Poder Executivo realize abusos atrav\u00e9s de pol\u00edticas monet\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje o Brasil tem uma estrutura legislativa madura para regulamentar a atua\u00e7\u00e3o do BCB e seu relacionamento com o Tesouro Nacional (TN), que administra as finan\u00e7as do governo federal. As principais limita\u00e7\u00f5es impostas s\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 O BCB n\u00e3o pode conceder empr\u00e9stimos ao TN. A d\u00edvida do Tesouro com o BCB pode apenas ser refinanciada ao longo do tempo, em valor ajustado pela infla\u00e7\u00e3o. Isso impede que o BCB possa emitir moeda e repass\u00e1-la ao TN, que poderia levar ao ciclo vicioso de emitir moeda para cobrir d\u00e9ficits fiscais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 Os juros pagos pelo Tesouro Nacional ao BCB s\u00e3o iguais aos juros de mercado. N\u00e3o podem ser feitas opera\u00e7\u00f5es entre as duas institui\u00e7\u00f5es em condi\u00e7\u00f5es especiais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 O lucro do Banco Central com varia\u00e7\u00f5es cambiais de suas reservas internacionais \u00e9 mantido no pr\u00f3prio BCB, para arcar com preju\u00edzos futuros. Esta tamb\u00e9m foi uma evolu\u00e7\u00e3o recente, j\u00e1 que antes, o lucro era repassado em dinheiro ao TN e, quando havia preju\u00edzos, o TN emitia ao BCB novos t\u00edtulos de d\u00edvida como pagamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Evitando tecnicalidades, a mensagem geral \u00e9 que o Poder Executivo brasileiro n\u00e3o tem a liberdade de simplesmente emitir moeda para bancar suas despesas. Para isso, precisaria de apoio do presidente do BCB e autoriza\u00e7\u00e3o do Congresso. \u00c9 o m\u00e1ximo de prote\u00e7\u00e3o legislativa que poder\u00edamos esperar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Aumento da d\u00edvida p\u00fablica<\/h2>\n\n\n\n<p>Se a arrecada\u00e7\u00e3o do governo n\u00e3o for suficiente e se ele tamb\u00e9m n\u00e3o puder emitir moeda para cobrir seus gastos, s\u00f3 resta ao Tesouro Nacional a alternativa de emitir novos t\u00edtulos para captar dinheiro com o mercado. Por\u00e9m, esse movimento tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 completamente livre, pois a constitui\u00e7\u00e3o brasileira limita o aumento da d\u00edvida p\u00fablica atrav\u00e9s da chamada Regra de Ouro (Art. 167, inciso III). Segundo ela, o governo pode tomar novas d\u00edvidas para financiar investimentos, mas n\u00e3o \u00e9 permitido aumentar o endividamento para financiar despesas correntes do Estado (pessoal, benef\u00edcios sociais, juros da d\u00edvida e custeio da m\u00e1quina p\u00fablica), exceto quando autorizado pelo Congresso, por maioria simples.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa limita\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o ser completamente eficiente pois, se o Congresso aprovar um or\u00e7amento contendo gastos adicionais e a arrecada\u00e7\u00e3o do ano seguinte n\u00e3o for suficiente para arcar com as novas despesas, n\u00e3o haveria muito o que fazer al\u00e9m de aprovar que o d\u00e9ficit seja coberto por novas d\u00edvidas. Por\u00e9m, novamente, \u00e9 o m\u00e1ximo de prote\u00e7\u00e3o legislativa que poder\u00edamos esperar, pois o Poder Executivo e o Poder Legislativo alinhados podem fazer praticamente qualquer coisa. Por isso \u00e9 que o mercado teme essa possibilidade, que carregaria dois problemas:<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro, \u00e9 que recorrer ao aumento da d\u00edvida para sustentar despesas correntes sinaliza irresponsabilidade fiscal por parte do governo, fazendo com que o mercado atribua maior risco aos empr\u00e9stimos feitos ao Tesouro Nacional (t\u00edtulos p\u00fablicos) e, portanto, passe a exigir taxas de juros mais altas. Com isso, aumentam os gastos do governo com juros da d\u00edvida p\u00fablica, piorando o problema de d\u00e9ficit fiscal.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo problema, \u00e9 que ao emprestar dinheiro para expandir gastos p\u00fablicos, o governo aumentaria a demanda por produtos e servi\u00e7os no mercado, o que estimularia o aumento da infla\u00e7\u00e3o justamente em um momento que nosso Banco Central est\u00e1 tentando reduzi-la. A consequ\u00eancia tende a ser que o Banco Central mantenha a taxa de juros alta por mais tempo e, assim, dificulte o crescimento de nossa economia por um per\u00edodo mais prolongado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Impacto nos investimentos em bolsa<\/h2>\n\n\n\n<p>J\u00e1 repetimos algumas vezes que a taxa de juros \u00e9 a for\u00e7a gravitacional do mercado financeiro: quanto mais alta ela \u00e9, mais puxa o pre\u00e7o dos ativos para baixo. Isso acontece porque o aumento da taxa b\u00e1sica de juros aumenta tamb\u00e9m as taxas de desconto usadas nos c\u00e1lculos de fluxo de caixa descontado, m\u00e9todo base para estimar o valor de ativos em geral, e quanto mais alta a taxa de desconto, menor \u00e9 o valor resultado. Al\u00e9m disso, taxas de juros mais altas reduzem a expectativa de crescimento das empresas e incentivam que capital saia da bolsa e v\u00e1 para renda fixa, intensificando o movimento de baixa. \u00c9 por isso que a bolsa cai quando os juros sobem, e voltam a subir quando os juros caem.<\/p>\n\n\n\n<p>O que descrevemos at\u00e9 aqui resume o motivo de todo o recente stress de mercado. Agora, vamos dar um passo atr\u00e1s e avaliar esse cen\u00e1rio sob um olhar mais amplo, envolvendo os aspectos que n\u00e3o fazem parte dessa sequ\u00eancia l\u00f3gica, mas continuam fazendo parte do conjunto de fatores relevantes para nossos investimentos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quest\u00e3o fiscal<\/h2>\n\n\n\n<p>O gatilho de toda a cadeia de poss\u00edveis problemas fiscais que o Brasil pode ter no futuro seria a PEC da Transi\u00e7\u00e3o, que ainda n\u00e3o foi aprovada no formato proposto. Sabemos que nosso Congresso n\u00e3o \u00e9 famoso por sua agilidade e pragmatismo. A inten\u00e7\u00e3o do PT \u00e9 aprovar a PEC ainda este ano, mas temas pol\u00eamicos costumam demorar para tramitar no Congresso e ser bastante dilu\u00eddos ao longo do processo. A PEC da Transi\u00e7\u00e3o pode ser aprovada com termos mais brandos (permiss\u00e3o para exceder o teto de gastos com valor menor ou por per\u00edodo mais curto) ou pode sequer ser aprovada esse ano, dado que j\u00e1 estamos pr\u00f3ximos do recesso parlamentar. Se a pauta ficar para 2023, ter\u00e1 de ser rediscutida com o novo Congresso eleito, menos alinhado com o PT.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o impacto pr\u00e1tico da PEC que movimenta a bolsa. Boa parte do dinheiro investido no mercado de a\u00e7\u00f5es \u00e9 capital estrangeiro e, vendo os pr\u00f3prios brasileiros em discuss\u00f5es fervorosas sobre responsabilidade fiscal, gestores de fundos internacionais, que geralmente tem um percentual pequeno de sua carteira no Brasil, tendem a simplesmente reduzir suas posi\u00e7\u00f5es na bolsa brasileira at\u00e9 que o cen\u00e1rio se estabilize, ao inv\u00e9s de gastar tempo tentando entender em maior profundidade nossos dramas pol\u00edticos. Recentemente vimos fundos internacionais vendendo, a pre\u00e7os muito baixos, a\u00e7\u00f5es de empresas que podem ser inclusive beneficiadas pelos gastos sociais que o novo governo planeja, sob o racional puro de reduzir exposi\u00e7\u00e3o a Brasil. Em momentos de turbul\u00eancia, h\u00e1 v\u00e1rios agentes de mercado que se comportam de maneira menos minuciosa e anal\u00edtica do que se costuma imaginar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Expectativa para a curva de juros<\/h2>\n\n\n\n<p>Outra premissa de mercado \u00e9 que os juros futuros seguir\u00e3o a curva de juros atual, j\u00e1 que ela reflete as melhores proje\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis no momento. \u00c9 uma premissa razo\u00e1vel, mas \u201cas melhores proje\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis\u201d \u00e9 algo bem diferente de \u201c\u00f3timas proje\u00e7\u00f5es\u201d. Em fevereiro de 2022 publicamos uma carta falando sobre a dificuldade de prever vari\u00e1veis macroecon\u00f4micas e mostrando qual \u00e9 a taxa de acerto da previs\u00e3o de juros futuros do mercado. Em suma, ela \u00e9 bastante ruim. Em dezembro de 2020, a proje\u00e7\u00e3o de taxa SELIC para 2022 era de 4,5%. Isso ilustra qu\u00e3o r\u00e1pido o ambiente macro pode mudar e frustrar completamente as expectativas de mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa abordagem \u00e9 admitir a incerteza inerente \u00e0s vari\u00e1veis macro e nos ater ao que sabemos com maior grau de confian\u00e7a: a taxa de juros atual est\u00e1 alta e faz parte de um plano de a\u00e7\u00e3o tempor\u00e1rio do BCB para combater a infla\u00e7\u00e3o. A tend\u00eancia de m\u00e9dio prazo \u00e9 de revers\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia. A\u00e7\u00f5es do novo governo poderiam prolongar os juros altos, como mencionamos, mas h\u00e1 um longo processo at\u00e9 que isso se materialize e, como podemos ver pela rea\u00e7\u00e3o \u00e0 PEC, tanto o governo quanto o Congresso teriam que passar por cima de diversos grupos de interesse relevantes. Sempre \u00e9 poss\u00edvel, mas n\u00e3o nos parece t\u00e3o prov\u00e1vel que aconte\u00e7a nas propor\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas que o mercado teme.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Entre a cruz e a espada<\/h2>\n\n\n\n<p>Sob um outro \u00e2ngulo de vis\u00e3o, vale considerar se \u00e9 melhor ter renda fixa ou a\u00e7\u00f5es em carteira caso o cen\u00e1rio de crise fiscal se concretize. Se os juros subirem por causa de irresponsabilidade fiscal do governo, essa alta reflete o aumento do risco presente nos t\u00edtulos p\u00fablicos. A bolsa pode continuar em baixa, mas investir em renda fixa nacional n\u00e3o traz tanta seguran\u00e7a neste cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil tem a maior parte de sua d\u00edvida em moeda local, ent\u00e3o o risco n\u00e3o \u00e9 receber um calote do Tesouro Nacional, mas que seja feita uma emiss\u00e3o extraordin\u00e1ria de moeda para quitar uma parcela da d\u00edvida p\u00fablica que se torne impag\u00e1vel pelos meios normais (apesar de exigir apoio do Congresso, \u00e9 uma manobra poss\u00edvel em situa\u00e7\u00f5es extremas).<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a\u00e7\u00f5es podem sofrer com a desacelera\u00e7\u00e3o da economia, mas tem uma prote\u00e7\u00e3o natural contra infla\u00e7\u00e3o e taxas de juros reais elevadas por per\u00edodos longos. O conceito importante para manter em mente \u00e9 que uma empresa que produza algo de \u00fatil para a sociedade sempre ter\u00e1 valor econ\u00f4mico real, independente da moeda e da taxa de juros do pa\u00eds. Se a moeda perder valor, as empresas aumentam seus pre\u00e7os e continuam vendendo enquanto existir demanda por seus produtos no mercado. Se a taxa de juros subir, a demanda por cr\u00e9dito diminuir\u00e1 at\u00e9 um ponto que force os juros a voltarem a cair. De maneira ultra simplificada, essa \u00e9 a natureza dos ciclos econ\u00f4micos j\u00e1 bem conhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Investir fora do Brasil poderia ser uma alternativa, mas tamb\u00e9m tem seus problemas atualmente. As taxas de c\u00e2mbio atuais n\u00e3o est\u00e3o claramente favor\u00e1veis para tirar dinheiro do pa\u00eds e a economia global tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 em seu melhor momento. Estados Unidos e Europa Ocidental, os mercados que geralmente consideramos como portos seguros, est\u00e3o caminhando para uma recess\u00e3o causada por pol\u00edticas monet\u00e1rias para combater infla\u00e7\u00e3o muito semelhantes a que o Brasil adotou, mas fizemos esse movimento cerca de 1 ano antes do que esses pa\u00edses. Ou seja, eles podem demorar mais tempo que o Brasil para voltar a crescer.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, n\u00e3o h\u00e1 investimento perfeitamente seguro, com excelente rentabilidade e liquidez.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Foco nos fatos<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de ser imposs\u00edvel prever o momento exato de revers\u00e3o do ciclo de baixa, sabemos que estamos longe de seu pico. O risco que permanece \u00e9 de ainda atravessarmos mais alguns anos ruins, mas h\u00e1 tamb\u00e9m que se considerar a base da qual estamos saindo. Acabamos de passar por anos de problemas econ\u00f4micos graves causados pela pandemia. O retorno \u00e0 normalidade, por si s\u00f3, j\u00e1 deveria fazer com que os pr\u00f3ximos anos n\u00e3o sejam t\u00e3o ruins quanto os \u00faltimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, hoje estamos vendo pre\u00e7os de a\u00e7\u00f5es bastante raros. Em nosso tempo atuando no mercado, s\u00f3 vimos algo compar\u00e1vel na crise do subprime, em 2009, e na crise do governo Dilma, em 2015. Com pre\u00e7os nesse patamar, algumas de nossas a\u00e7\u00f5es tem potencial para dobrar de valor nos pr\u00f3ximos anos em um cen\u00e1rio macro moderado. Mesmo se a economia tiver um desempenho med\u00edocre, essas a\u00e7\u00f5es ainda devem ter um retorno consideravelmente acima da taxa b\u00e1sica de juros. Investimentos em bolsa sempre ter\u00e3o um risco de perda em cen\u00e1rios catastr\u00f3ficos, mas a rela\u00e7\u00e3o de risco e retorno atual nos parece bastante favor\u00e1vel em a\u00e7\u00f5es selecionadas. O gr\u00e1fico abaixo deixa claro o qu\u00e3o baratas as a\u00e7\u00f5es est\u00e3o: o m\u00faltiplo Pre\u00e7o\/Lucro m\u00e9dio da bolsa est\u00e1 35% abaixo de seu patamar m\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1213\" height=\"645\" src=\"\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/nuvens-negras-no-horizonte-01.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-5839\" srcset=\"https:\/\/hml.artica.capital\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/nuvens-negras-no-horizonte-01.webp 1213w, https:\/\/hml.artica.capital\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/nuvens-negras-no-horizonte-01-300x160.webp 300w, https:\/\/hml.artica.capital\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/nuvens-negras-no-horizonte-01-1024x545.webp 1024w, https:\/\/hml.artica.capital\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/nuvens-negras-no-horizonte-01-768x408.webp 768w, https:\/\/hml.artica.capital\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/nuvens-negras-no-horizonte-01-18x10.webp 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1213px) 100vw, 1213px\" \/><\/figure>\n\n\n\n\n<p>Por fim, deixamos a provoca\u00e7\u00e3o de que grandes investimentos s\u00f3 s\u00e3o feitos se movimentando no sentido contr\u00e1rio ao consenso de mercado. N\u00e3o poderia ser diferente disto, pois as a\u00e7\u00f5es ficam muito mais caras quando o mercado est\u00e1 otimista. Assim, \u00e9 preciso manter serenidade para tomar decis\u00f5es sensatas mesmo em meio \u00e0s turbul\u00eancias macroecon\u00f4micas, garimpar excelentes neg\u00f3cios, investir neles e esperar a tempestade passar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEvery decade or so, dark clouds will fill the economic skies, and they will briefly rain gold. When downpours of that sort occur, it&#8217;s imperative that we rush outdoors carrying washtubs, not teaspoons. And that we will do.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Warren Buffett<\/p>\n\n\n\n<p>Dia 07\/12 faremos uma live via Zoom comentando sobre a carta desse m\u00eas. Inscreva-se <a href=\"https:\/\/us02web.zoom.us\/webinar\/register\/WN_GaT80UjGQumnZT-kF0teYg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clicando aqui<\/a>.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caros investidores, Neste \u00faltimo m\u00eas, o IBOV caiu 2%, mas a queda foi bem pior do que aparenta, pois esse valor est\u00e1 mascarado pelo movimento de VALE3, que corresponde a 18% da carteira do \u00edndice e subiu 28%, na contram\u00e3o do mercado. Excluindo VALE3, o IBOV teria ca\u00eddo 9% em novembro. 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