{"id":5661,"date":"2023-11-10T16:53:41","date_gmt":"2023-11-10T19:53:41","guid":{"rendered":"https:\/\/hml.artica.capital\/asset-cartas\/mercado-miope-por-que-investidores-focam-demais-no-curto-prazo\/"},"modified":"2023-11-10T16:53:41","modified_gmt":"2023-11-10T19:53:41","slug":"mercado-miope-por-que-investidores-focam-demais-no-curto-prazo","status":"publish","type":"cartas","link":"https:\/\/hml.artica.capital\/en\/asset-cartas\/mercado-miope-por-que-investidores-focam-demais-no-curto-prazo\/","title":{"rendered":"Mercado m\u00edope: por que investidores focam demais no curto prazo"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-group has-global-padding is-layout-constrained wp-container-core-group-is-layout-eb5bab19 wp-block-group-is-layout-constrained\">\n\n<div class=\"wp-block-columns artica-content-spaces is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:40%\">\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: #Carta Novembro\/23: Mercado M\u00edope - Por que investidores focam demais no curto prazo\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"624\" height=\"351\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/1Kj72rZPkguVjOmSHmFivr\/video?utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n<\/div>\n\n<\/div>\n\n<\/div>\n\n\n\n<p>Dear investors,<\/p>\n\n\n\n<p>Houve uma \u00e9poca em que o acesso a informa\u00e7\u00f5es era uma grande vantagem competitiva para investidores. Em 1815, enquanto Inglaterra e Fran\u00e7a travavam a batalha de Waterloo, o banqueiro Nathan Rotschild tinha a pr\u00f3pria rede de espi\u00f5es para acompanhar o desenrolar da guerra e ficou sabendo antes de todos que a Inglaterra havia vencido a batalha.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo essa informa\u00e7\u00e3o exclusiva em m\u00e3os, Nathan Rotschild come\u00e7ou a vender seus ativos na bolsa de Londres. Como todos sabiam sobre sua rede de informantes, deduziram que o motivo das vendas era que a guerra havia sido perdida e come\u00e7aram a vender suas a\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m, iniciando uma onda de p\u00e2nico e queda r\u00e1pida dos pre\u00e7os. Em paralelo, o banqueiro deu ordem para que v\u00e1rios agentes seus comprassem diversos ativos a pre\u00e7os descontados. Quando a not\u00edcia de que a batalha havia sido vencida chegou a todos, os pre\u00e7os rapidamente se recuperaram e Nathan ampliou sua fortuna subitamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia, a manobra n\u00e3o seria t\u00e3o vi\u00e1vel. Grandes eventos s\u00e3o rapidamente noticiados em v\u00e1rios canais de m\u00eddia e a diferen\u00e7a temporal que investidores profissionais recebem esse tipo de not\u00edcia n\u00e3o \u00e9 suficiente para constituir vantagem relevante. Al\u00e9m disso, acesso a informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o p\u00fablicas via redes de espionagem e afins provavelmente cairia na categoria de informa\u00e7\u00e3o privilegiada, cujo uso para operar no mercado \u00e9 ilegal. Assim, hoje nos parece que a vantagem competitiva vem menos do acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e mais da capacidade de, em meio \u00e0 infinitude de not\u00edcias e dados, filtrar o que \u00e9 relevante e n\u00e3o perder tempo com o resto do ru\u00eddo di\u00e1rio. Esse filtro passa por ter clareza sobre o que importa para teses de investimentos em bolsa, tema que abordaremos nesta carta.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que impacta o valor de uma a\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O que determina o valor intr\u00ednseco de uma empresa \u00e9 a expectativa do fluxo de caixa que ser\u00e1 gerado por ela ao longo dos anos, descontado pela taxa de retorno que um investidor entende ser adequada para o n\u00edvel de risco do neg\u00f3cio. Esse \u00e9 o m\u00e9todo do fluxo de caixa descontado, usado como base para a precifica\u00e7\u00e3o de praticamente qualquer ativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma caracter\u00edstica da aplica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo \u00e9 que os fluxos de caixa gerados no futuro distante t\u00eam valor menor do que a gera\u00e7\u00e3o de caixa no futuro imediato, sob a l\u00f3gica de que um dividendo pago no futuro tem que embutir em seu valor um retorno adequado para todo o tempo de espera, enquanto dividendos pagos imediatamente n\u00e3o exigem nenhuma taxa de retorno pela passagem do tempo. Ou seja, R$ 100 pagos agora valem, naturalmente, os mesmos R$ 100, enquanto R$ 100 pagos daqui a 10 anos, valem hoje muito menos do que isso, pois, considerando uma taxa de retorno de 15% ao ano, R$ 25 investidos hoje se tornariam R$ 100 ap\u00f3s 10 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, mesmo que os fluxos gerados no curto prazo tenham um valor maior do que aqueles gerados em anos distantes, o valor total de uma empresa ainda depende substancialmente dos resultados que seu neg\u00f3cio produzir\u00e1 durante um horizonte de tempo bastante longo. Por exemplo, uma empresa que cres\u00e7a seus lucros a uma taxa de 8% ao ano (cerca de 3% acima da infla\u00e7\u00e3o, no Brasil), quando avaliada com uma taxa de desconto de 15% ao ano, tem em seu primeiro ano de resultados apenas ~6% de seu valor total. Nos primeiros 5 anos, estaria ~27% do valor total do neg\u00f3cio e, nos primeiros 10 anos, 47% do valor total. A conclus\u00e3o desse exemplo \u00e9 bastante simples: o resultado do pr\u00f3ximo ano importa pouco para o valor intr\u00ednseco de uma empresa. Logo, o do pr\u00f3ximo trimestre importa menos ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da conclus\u00e3o, \u00e9 comum ver o pre\u00e7o de uma a\u00e7\u00e3o se movimentar v\u00e1rios pontos percentuais por causa de um resultado trimestral acima ou abaixo do que era esperado pelo mercado, ou por causa de alguma not\u00edcia sobre pol\u00edtica ou macroeconomia. O que causa essas oscila\u00e7\u00f5es de pre\u00e7o \u00e9 o fato do mercado, \u00e0 luz da nova informa\u00e7\u00e3o, ajustar suas proje\u00e7\u00f5es de resultados futuros. Ou seja, o fato de uma empresa ter apresentado resultados ruins em um dado trimestre, por exemplo, faz com que v\u00e1rios investidores reduzam as expectativas de resultados para seu neg\u00f3cio nos diversos anos vindouros. Realizar o ajuste faz sentido, pois \u00e9 necess\u00e1rio incorporar novas informa\u00e7\u00f5es nas an\u00e1lises de investimentos, mas muitas vezes seu impacto \u00e9 exagerado e nos interessa entender por qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que tanta aten\u00e7\u00e3o ao curto prazo<\/h2>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s da volatilidade de pre\u00e7os no mercado est\u00e1 um foco exagerado no curto prazo que, por sua vez, \u00e9 resultado de uma coaliz\u00e3o de fatores pressionando investidores e agentes do mercado financeiro a manter sua aten\u00e7\u00e3o nos acontecimentos pr\u00f3ximos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos principais fatores \u00e9 a press\u00e3o dos clientes finais (investidores individuais), sobre os agentes encarregados de cuidar de seus investimentos (gestores de patrim\u00f4nio ou gestores de fundos), para produzirem retornos r\u00e1pidos e evitarem volatilidade no valor de seu portf\u00f3lio. Apesar da maior parte dos gestores profissionais entender que investir em bolsa \u00e9 uma atividade de longo prazo, entre seguir sua cren\u00e7a verdadeira e fazer a vontade de seus clientes para garantir que continuar\u00e3o sendo seus clientes, a grande maioria prefere a segunda alternativa. Assim, acertar os movimentos de pre\u00e7o de a\u00e7\u00f5es nos pr\u00f3ximos meses se torna o objetivo de grande parte dos profissionais atuantes no mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Como um desdobramento dessa din\u00e2mica, prever o curto prazo tamb\u00e9m se torna o objetivo que promete mais sucesso comercial. Por exemplo, o analista de research que acerta o resultado de uma empresa no pr\u00f3ximo trimestre geralmente recebe mais louros de seus pares e clientes do que aquele que acerta o estado final de uma empresa daqui a 5 anos, j\u00e1 que a janela de tempo \u00e9 ampla demais para que a previs\u00e3o ainda esteja na mem\u00f3ria dos observadores. Al\u00e9m disso, 5 anos possuem 20 trimestres, que s\u00e3o 20 oportunidades para o analista de curto prazo elaborar e propagandear novas teses, enquanto manter a mesma tese durante 5 anos rende muito menos pautas para conversas interessantes com clientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o fato de que o longo prazo \u00e9 muito mais incerto tamb\u00e9m contribui para essa aten\u00e7\u00e3o demasiada ao curto prazo, visto que a mente humana n\u00e3o gosta de incertezas e busca artif\u00edcios para escapar da necessidade de admitir sua ignor\u00e2ncia (que tamb\u00e9m traz pouco sucesso comercial). Assim, h\u00e1 um forte vi\u00e9s de gastar a maior parte do tempo analisando os acontecimentos recentes, projetar o futuro breve com maior cautela e assumir que o futuro distante ser\u00e1 simplesmente uma extrapola\u00e7\u00e3o deste breve passado e curta proje\u00e7\u00e3o, com uma linha de continuidade que \u00e9 intelectualmente confort\u00e1vel aceitar.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema da pr\u00e1tica de focar exageradamente no curto prazo e projetar o longo prazo atrav\u00e9s de extrapola\u00e7\u00f5es \u00e9 que ela amplifica demais o peso dos fatos recentes. Se uma empresa cresceu r\u00e1pido durante alguns trimestres, por exemplo, o simples ato de assumir que a receita do \u00faltimo ano \u00e9 a melhor base de partida para aplicar uma taxa de crescimento m\u00e9dia dali para a frente pode superestimar o valor do neg\u00f3cio. Se o investidor assume que o ritmo de crescimento continuar\u00e1 acelerado, a supervaloriza\u00e7\u00e3o pode ser ainda maior. A mesma din\u00e2mica se aplica para novidades negativas e, como consequ\u00eancia do exagero nesses ajustes baseados em fatos recentes, os pre\u00e7os se tornam mais vol\u00e1teis do que deveriam, dado que n\u00e3o seria esperado que proje\u00e7\u00f5es para d\u00e9cadas de resultados oscilassem tanto trimestre a trimestre.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo interessante \u00e9 que um estudo sobre psicologia (McClure, Laibson, Loewenstein and Cohen, 2004) descobriu que o c\u00e9rebro humano tende a valorizar mais recompensas imediatas (e.g.: a\u00e7\u00f5es subindo no curt\u00edssimo prazo), percebidas pelo sistema l\u00edmbico, do que recompensas maiores e diferidas (e.g.: expectativas de retorno em investimentos de longo prazo), percebidas pelo sistema frontoparietal, porque o sistema l\u00edmbico tem a habilidade de sobrepor o sistema frontoparietal, especialmente em situa\u00e7\u00f5es de stress. Ou seja, quanto mais sob stress as pessoas est\u00e3o, mais valor elas atribuem ao curto prazo. Isso ajuda a explicar por que tanto foco no curto prazo por parte dos investidores durante os per\u00edodos de crise econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Qual \u00e9 o foco adequado<\/h2>\n\n\n\n<p>Pacificado o ponto de que o curto prazo tem relev\u00e2ncia limitada para teses de investimento em a\u00e7\u00f5es, resta o problema de como lidar com o a imprevisibilidade do futuro distante. Um primeiro passo \u00e9 entender que nem tudo pode ser projetado com assertividade suficiente para servir de base para uma tese de investimentos com boa probabilidade de sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre esses fatores dif\u00edceis de prever, alguns s\u00e3o bastante importantes para um neg\u00f3cio (por exemplo, o pre\u00e7o do petr\u00f3leo para petroleiras), mas \u00e9 vital manter em mente que o n\u00edvel de import\u00e2ncia de algo n\u00e3o tem correla\u00e7\u00e3o com sua previsibilidade, e h\u00e1 v\u00e1rios fatores no mundo que continuam imprevis\u00edveis por mais que se dedique esfor\u00e7os para elaborar proje\u00e7\u00f5es intelectualmente elegantes. A armadilha \u00e9 acreditar que a complexidade e eleg\u00e2ncia das previs\u00f5es aumentam suas chances de estarem corretas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, h\u00e1 alguns anos, se falava em um super ciclo de secas no Brasil, que afetaria o setor el\u00e9trico e o agroneg\u00f3cio. Na \u00e9poca, as chuvas estavam abaixo do n\u00edvel normal h\u00e1 anos, os reservat\u00f3rios das geradoras de energia estavam baixos e o agroneg\u00f3cio sofria por falta de chuvas. A proje\u00e7\u00e3o era coerente com o que vinha acontecendo e sustentada por longas an\u00e1lises meteorol\u00f3gicas. Nos anos seguintes, se iniciou um ciclo de chuvas fortes que encheu reservat\u00f3rios, gerou supersafras e apagou da mem\u00f3ria as teses de secas prolongadas. Esse \u00e9 apenas um exemplo de v\u00e1rias previs\u00f5es elaboradas que vimos se provarem diametralmente erradas ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aceito o fato de que a maior parte do futuro \u00e9 irremediavelmente imprevis\u00edvel, o trabalho do bom investidor \u00e9 encontrar os poucos pontos que s\u00e3o, ao mesmo tempo, importantes para o sucesso de um neg\u00f3cio e poss\u00edveis de prever com confiabilidade razo\u00e1vel. Para isso, costumamos come\u00e7ar estudando um longo per\u00edodo passado. N\u00e3o basta olhar resultados de um neg\u00f3cio nos \u00faltimos 2 ou 3 anos. Queremos avaliar como a empresa se comportou nos \u00faltimos 10 a 15 anos e buscar em seu passado os pontos que permaneceram inalterados ou que evolu\u00edram de acordo com uma l\u00f3gica compreens\u00edvel o suficiente para estimar como continuar\u00e3o evoluindo.<\/p>\n\n\n\n<p>No famoso caso de investimento do Warren Buffet na Coca-Cola, um fator relevante foi a compreens\u00e3o de que as pessoas criam fortes h\u00e1bitos de consumir sempre as mesmas bebidas. Curiosamente, n\u00e3o gostamos de comer as mesmas coisas todos os dias, mas costumamos beber as mesmas coisas por anos e anos a fio. Assim, \u00e9 razo\u00e1vel assumir que a demanda por bebidas da Coca-Cola \u00e9 bastante resiliente e, por consequ\u00eancia, seu n\u00edvel de receita tamb\u00e9m. Esse \u00e9 um exemplo de fator est\u00e1vel o suficiente para prever sua continuidade no futuro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nenhuma previs\u00e3o \u00e9 precisa<\/h2>\n\n\n\n<p>Notem que, mesmo no exemplo da Coca-Cola, a estabilidade da demanda se mant\u00e9m apenas em janelas de tempo longas. Ou seja, a receita da Coca-Cola n\u00e3o \u00e9 completamente est\u00e1vel trimestre a trimestre, ou mesmo ano a ano. Todo neg\u00f3cio tem suas oscila\u00e7\u00f5es ao longo do tempo. Ent\u00e3o, prever resultados trimestrais n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um objetivo dif\u00edcil, mas \u00e9 tamb\u00e9m desnecess\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 isso que realmente importa.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive, estabilidade de curto prazo n\u00e3o \u00e9 sequer uma condi\u00e7\u00e3o para constituir um bom neg\u00f3cio. Um exemplo \u00e9 nosso pr\u00f3prio caso de investimento na Whirlpool, empresa dona das marcas Brastemp e Consul e da qual somos acionistas h\u00e1 mais de 10 anos. Como eletrodom\u00e9sticos t\u00eam uma longa vida \u00fatil, n\u00e3o s\u00e3o itens de consumo recorrente. Assim, sua demanda \u00e9 c\u00edclica, variando com condi\u00e7\u00f5es macroecon\u00f4micas e ciclos de lan\u00e7amentos imobili\u00e1rios (as pessoas compram eletrodom\u00e9sticos quando mudam de casa). Apesar da demanda inst\u00e1vel, a Whirlpool n\u00e3o registra preju\u00edzos h\u00e1 mais de 20 anos. Sua margem de lucro oscila entre patamares altos e baixos, mas a rentabilidade m\u00e9dia \u00e9 bastante atrativa e est\u00e1vel em per\u00edodos longos, o que nos garantiu \u00f3timos retornos ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, mesmo com a ampla instabilidade macroecon\u00f4mica que o Brasil atravessou nesse per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada vari\u00e1vel tem um prazo adequado para fazer estimativas com confiabilidade razo\u00e1vel, que deve ser longo o suficiente para garantir um espa\u00e7o amostral  necess\u00e1rio para que a estat\u00edstica utilizada nas previs\u00f5es seja aplic\u00e1vel, seguindo a l\u00f3gica de que \u00e9 mais f\u00e1cil prever o resultado do lan\u00e7amento de 1.000 dados do que o resultado de 10 lan\u00e7amentos, mas n\u00e3o t\u00e3o longo a ponto de introduzir o risco de aspectos qualitativos mudar tanto nesse per\u00edodo que a l\u00f3gica das proje\u00e7\u00f5es se torne inadequada. Em nossa experi\u00eancia, o per\u00edodo ideal para proje\u00e7\u00f5es de resultados de neg\u00f3cios costuma ser de alguns anos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que um horizonte longo \u00e9 adequado<\/h2>\n\n\n\n<p>Pelo curt\u00edssimo prazo ter baixa relev\u00e2ncia para o valor de um neg\u00f3cio e pelo per\u00edodo de maior assertividade para proje\u00e7\u00f5es quantitativas costuma envolver alguns anos, entendemos que um horizonte de tempo adequado para elaborar previs\u00f5es expl\u00edcitas \u00e9 de 5 anos. Esse per\u00edodo n\u00e3o \u00e9 aplic\u00e1vel a todos os casos, pois h\u00e1 neg\u00f3cios que s\u00e3o previs\u00edveis por um tempo maior (empresas de concess\u00f5es rodovi\u00e1rias, por exemplo) mas \u00e9 uma boa refer\u00eancia de prazo que une previsibilidade razo\u00e1vel e relev\u00e2ncia para o valor intr\u00ednseco de uma empresa sob an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Por consequ\u00eancia, quando investimos em uma nova empresa, tipicamente estamos dispostos a manter suas a\u00e7\u00f5es em portf\u00f3lio por v\u00e1rios anos. Podemos vender a posi\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pido se o pre\u00e7o subir a ponto de superar o que entendemos ser o valor intr\u00ednseco do neg\u00f3cio ou se nossa tese de investimentos cair por terra por causa de algum acontecimento contr\u00e1rio ao que esper\u00e1vamos, mas julgamos importante ter as expectativas calibradas corretamente: a maior parte das teses demora para nos entregar os retornos previstos inicialmente, e o momento exato que isso acontece \u00e9 imprevis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio tempo, entre o investimento inicial e a decis\u00e3o de vender, \u00e9 preciso recordar que o pre\u00e7o e o valor intr\u00ednseco de uma a\u00e7\u00e3o s\u00e3o vari\u00e1veis distintas e nem sempre caminham juntas. J\u00e1 falamos longamente sobre isso em outras ocasi\u00f5es e estamos em boa companhia na posi\u00e7\u00e3o de atribuir pouca import\u00e2ncia aos pre\u00e7os de uma a\u00e7\u00e3o ao determinar seu valor real. Benjamin Graham usava a analogia do Mr. Market, um personagem bipolar que oferecia pre\u00e7os completamente diferentes para os mesmos ativos ao longo do tempo, dependendo de seu estado de humor moment\u00e2neo, e Warren Buffet ecoa o mesmo conceito, dizendo que o mercado est\u00e1 l\u00e1 para nos servir, e n\u00e3o para nos instruir. Ambos advogam que investidores deveriam tomar decis\u00f5es com base em uma avalia\u00e7\u00e3o independente do valor intr\u00ednseco de cada neg\u00f3cio, e n\u00e3o com base nas oscila\u00e7\u00f5es de pre\u00e7o e suas a\u00e7\u00f5es no mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um conceito simples, que quase todos concordam e pouqu\u00edssimos efetivamente praticam, pois as oscila\u00e7\u00f5es de pre\u00e7o di\u00e1rias afetam o psicol\u00f3gico da maioria das pessoas. A melhor forma de lidar com isso \u00e9 comprar a\u00e7\u00f5es com a inten\u00e7\u00e3o real de mant\u00ea-las em portf\u00f3lio por um prazo longo. Quando compramos um carro, por exemplo, dificilmente pretendemos vend\u00ea-lo alguns meses depois com lucro. A decis\u00e3o de compra \u00e9 baseada na expectativa de uso ao longo de v\u00e1rios anos. Assim, se o mercado oferecer metade do pre\u00e7o que voc\u00ea pagou pelo carro no m\u00eas seguinte, dificilmente voc\u00ea tomaria a decis\u00e3o de vend\u00ea-lo porque o pre\u00e7o caiu (o famoso \u201cstop loss\u201d) e simplesmente continuaria usando seu carro, com algum pesar por n\u00e3o o ter comprado um m\u00eas depois pela metade do pre\u00e7o. De forma an\u00e1loga, compramos a\u00e7\u00f5es com a expectativa de receber certo fluxo de caixa ao longo do tempo (este \u00e9 o \u201cuso\u201d pretendido). Enquanto o neg\u00f3cio continuar capaz de gerar o fluxo de caixa esperado, o racional da compra se mant\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A vantagem de focar no longo prazo<\/h2>\n\n\n\n<p>Por mais \u00f3bvia que a abordagem que descrevemos nos pare\u00e7a, \u00e9 um estilo de investimento que enfrenta pouca competi\u00e7\u00e3o. Enquanto a maioria dos investidores se mant\u00e9m fissurada com o curto prazo e sofrendo as oscila\u00e7\u00f5es de humor caricaturadas no Mr. Market, preferimos manter a aten\u00e7\u00e3o em horizontes mais longos e reagir com menos intensidade \u00e0s novidades do dia a dia que, em sua enorme maioria, provam ser apenas ru\u00eddo, sem efeito relevante no longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da nossa posi\u00e7\u00e3o, preferimos que o mercado continue se comportando da mesma maneira, com foco preponderante no curto prazo e provocando oscila\u00e7\u00f5es de pre\u00e7o exageradas, pois s\u00e3o justamente essas oscila\u00e7\u00f5es que geram as oportunidades de investimento que buscamos aproveitar ao longo do tempo. Felizmente, a continuidade desse comportamento n\u00e3o parece sob risco algum.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, esperamos identificar, ao longo do tempo, pessoas que sigam uma filosofia de investimento similar \u00e0 nossa e possam se tornar parceiros de investimento para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. At\u00e9 o momento, temos o privil\u00e9gio de contar com uma base de investidores bastante alinhada com nosso estilo de gest\u00e3o, que j\u00e1 atravessou conosco per\u00edodos de turbul\u00eancia e teve a paci\u00eancia necess\u00e1ria para colher bons retornos.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguimos otimistas para os pr\u00f3ximos anos, devido \u00e0 qualidade dos neg\u00f3cios que temos hoje em portf\u00f3lio e aos n\u00edveis de desconto que o pre\u00e7o atual de nossas a\u00e7\u00f5es cont\u00e9m, quando comparados com nossas estimativas de valor intr\u00ednseco. Ao longo de nossos 10 anos de investimentos, em poucos momentos o pre\u00e7o de nosso portf\u00f3lio ficou t\u00e3o descontado quanto est\u00e1 agora.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group has-pureza-background-color has-background has-global-padding is-layout-constrained wp-container-core-group-is-layout-95339512 wp-block-group-is-layout-constrained\" style=\"padding-top:24px;padding-right:24px;padding-bottom:24px;padding-left:24px\">\n\n<p class=\"has-noite-color has-text-color has-link-color has-merriweather-font-family wp-elements-dbcf397fcd7ab17c8f42cd2bd65100ef\" style=\"font-size:18px;font-style:normal;font-weight:400;letter-spacing:0px;line-height:1.8\">\n  <em>Check out the comments from Ivan Barboza, manager of \u00c1rtica Long Term FIA, on this month&#039;s letter in <a href=\"https:\/\/youtube.com\/hBhrwYxSNAA\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">YouTube<\/a> or not <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/1Kj72rZPkguVjOmSHmFivr\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Spotify<\/a>.<\/em>\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caros investidores, Houve uma \u00e9poca em que o acesso a informa\u00e7\u00f5es era uma grande vantagem competitiva para investidores. 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