{"id":5649,"date":"2024-02-05T10:25:49","date_gmt":"2024-02-05T13:25:49","guid":{"rendered":"https:\/\/hml.artica.capital\/asset-cartas\/breve-historia-do-sistema-monetario\/"},"modified":"2024-02-05T10:25:49","modified_gmt":"2024-02-05T13:25:49","slug":"breve-historia-do-sistema-monetario","status":"publish","type":"cartas","link":"https:\/\/hml.artica.capital\/en\/asset-cartas\/breve-historia-do-sistema-monetario\/","title":{"rendered":"Breve hist\u00f3ria do sistema monet\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-group has-global-padding is-layout-constrained wp-container-core-group-is-layout-eb5bab19 wp-block-group-is-layout-constrained\">\n\n<div class=\"wp-block-columns artica-content-spaces is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:40%\">\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: #Carta Fevereiro\/24: Breve hist\u00f3ria do sistema monet\u00e1rio\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"624\" height=\"351\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/2wRTZfp00ZifoxByv8Khcn\/video?utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n<\/div>\n\n<\/div>\n\n<\/div>\n\n\n\n<p>Dear investors,<\/p>\n\n\n\n<p>Dinheiro \u00e9 algo t\u00e3o cotidiano que pode passar despercebido qu\u00e3o engenhosa \u00e9 sua natureza. Os sistemas monet\u00e1rios atuais s\u00e3o bastante complexos e, por consequ\u00eancia, pouco entendidos pela grande maioria das pessoas, mesmo entre investidores.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta carta, trazemos um breve resumo de como o mundo chegou at\u00e9 o sistema monet\u00e1rio atual, com bancos centrais e regimes de c\u00e2mbio flutuante, e algumas reflex\u00f5es sobre quais as consequ\u00eancias desse sistema para nossos investimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 admitindo a estranheza do tema entre os assuntos que costumamos abordar, ele surgiu porque recentemente aprovamos uma tese de investimentos em uma empresa listada na bolsa de Londres. A necessidade de lidar com convers\u00f5es de moedas e riscos de c\u00e2mbio despertou nossa curiosidade para esta perspectiva hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Breve hist\u00f3ria da moeda<\/h2>\n\n\n\n<p>Antes da exist\u00eancia de moedas, qualquer atividade comercial era feita atrav\u00e9s da troca de produtos: um cesto de p\u00e3es por um peda\u00e7o de carne, um boi por duas ovelhas. Cada opera\u00e7\u00e3o negociada individualmente e com duas grandes dificuldades: a primeira \u00e9 que, se voc\u00ea tivesse apenas um boi para negociar, teria que encontrar algu\u00e9m que tivesse o produto que voc\u00ea queria comprar e, ao mesmo tempo, quisesse um boi; a segunda \u00e9 que voc\u00ea precisaria comprar um volume de produtos equivalente ao valor de um boi que, ao menos enquanto vivo, \u00e9 uma unidade de valor indivis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira evolu\u00e7\u00e3o desse sistema desajeitado foi encontrar algum produto que fosse de interesse comum, f\u00e1cil de armazenar e f\u00e1cil de dividir nas quantidades necess\u00e1rias a cada opera\u00e7\u00e3o comercial. V\u00e1rios materiais assumiram esse papel na antiguidade. No in\u00edcio do Imp\u00e9rio Romano, o sal foi usado como moeda de troca por certo tempo. Usado por todos como tempero e para conservar carnes e peixes, f\u00e1cil de armazenar, divis\u00edvel em qualquer quantidade e razoavelmente valioso na \u00e9poca, o sal cumpria todos os requisitos para servir de produto intermedi\u00e1rio em atividades comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda antes do in\u00edcio do calend\u00e1rio crist\u00e3o, esses produtos intermedi\u00e1rios come\u00e7aram a ser substitu\u00eddos pelos metais preciosos, em especial o ouro, que se tornou uma moeda de valor universal desde ent\u00e3o. Uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas fizeram do ouro o material escolhido como moeda de troca universal. Ele \u00e9 universalmente desejado e raro o suficiente para que pequenas quantidades representem um valor expressivo. \u00c9 divis\u00edvel em qualquer quantidade que se queira e eternamente dur\u00e1vel. Apesar da possibilidade de criar ligas met\u00e1licas o misturando com outros metais, como uma forma de falsifica\u00e7\u00e3o do que deveria ser ouro puro, m\u00e9todos para testar sua pureza s\u00e3o conhecidos desde a antiguidade, como prova um conto sobre Arquimedes, famoso matem\u00e1tico da antiguidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo III a.c., o rei grego Hiero II contratou um ourives para forjar uma coroa de ouro, fornecendo a ele todo o ouro necess\u00e1rio para criar a pe\u00e7a. Quando a coroa foi entregue, surgiram suspeitas de que o ourives havia roubado parte do ouro para si e o substitu\u00eddo por prata. A coroa pesava exatamente o mesmo que a barra de ouro dedicada \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o, mas a pureza do metal poderia estar comprometida.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem querer destruir a nova coroa para testar sua suspeita, o rei Hiero II pediu que Arquimedes encontrasse uma forma de testar a pureza do ouro sem danificar o objeto. Depois de semanas pensando sobre o problema, enquanto tomava banho em uma banheira, Arquimedes notou que o volume de \u00e1gua deslocado quando se entrava na banheira era igual ao volume do corpo do objeto imerso nela, independente do material que tal objeto fosse feito. Segundo a lenda, foi nesse momento ele entendeu que poderia usar esse princ\u00edpio para resolver o problema do rei e, em seu entusiasmo, saiu despido pelas ruas gritando \u201cEureka!\u201d, termo grego para \u201cDescobri!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O teste desenvolvido por Arquimedes \u00e9 bastante simples. Tendo o ouro sua densidade cerca de duas vezes maior do que a da prata, um objeto de ouro puro tem volume menor do que se fosse feito de ouro e prata. Assim, Arquimedes colocou a coroa do rei Hiero II em um recipiente cheio d\u2019\u00e1gua e mediu o volume de \u00e1gua deslocado. Depois, pegou uma barra de ouro puro com o mesmo peso da coroa, colocou em outro recipiente e fez a mesma medi\u00e7\u00e3o do volume de \u00e1gua deslocado. Comparando as duas medi\u00e7\u00f5es e vendo que a coroa havia deslocado mais \u00e1gua do que a barra de ouro puro, o crime foi provado e o ourives punido.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa hist\u00f3ria ilustra tamb\u00e9m qu\u00e3o antiga \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do ouro como s\u00edmbolo de riqueza material. Curiosamente, at\u00e9 hoje o principal uso do ouro \u00e9 na fabrica\u00e7\u00e3o de joias e objetos de decora\u00e7\u00e3o. Seu valor permanece alto n\u00e3o porque existe algum uso industrial t\u00e3o volumoso, mas porque ele continua sendo desejado pelas pessoas de todo o mundo. Notem que n\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de moeda que tornou o ouro valioso, mas ele se tornou um meio de reserva de valor justamente por j\u00e1 ser algo valioso antes. Algum instinto primordial o torna admir\u00e1vel e o associa \u00e0 riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o s\u00e9culo 18, moedas contendo quantidades pr\u00e9-determinadas de metais preciosos continuaram sendo a principal forma de dinheiro usada para com\u00e9rcio cotidiano. A partir de ent\u00e3o, gradualmente foram substitu\u00eddas por papel moeda, c\u00e9dulas impressas desprovidas de valor em si, mas que representam determinado valor e s\u00e3o amplamente aceitas. O dinheiro de papel ainda usado hoje segue esse mesmo conceito.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O padr\u00e3o ouro<\/h2>\n\n\n\n<p>O papel moeda substituiu as moedas met\u00e1licas no cotidiano por quest\u00f5es pr\u00e1ticas. A pureza dos metais precisava ser testada, a transfer\u00eancia de somas expressivas significava ter que transportar cargas pesadas do metal e havia a quest\u00e3o de seguran\u00e7a, tanto no transporte quanto na armazenagem das moedas met\u00e1licas.<\/p>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o encontrada foi armazenar os metais preciosos em cofres banc\u00e1rios, especialmente constru\u00eddos para esse fim, e substituir a circula\u00e7\u00e3o dos metais por c\u00e9dulas emitidas pela institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel por sua armazenagem. Cada c\u00e9dula representava um determinado valor, e poderia ser convertida de volta em metais preciosos em esp\u00e9cie, geralmente ouro ou prata, mediante solicita\u00e7\u00e3o \u00e0 institui\u00e7\u00e3o emissora das notas. No princ\u00edpio, bancos privados chegaram a emitir moedas lastreadas em ouro com aceita\u00e7\u00e3o ampla no mercado. Mais tarde, os bancos centrais de cada na\u00e7\u00e3o passaram a atuar como emissores exclusivos de papel moeda, condi\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, os bancos centrais mantiveram como pr\u00e1tica geral o lastro das moedas em ouro. Ou seja, garantiam a conversibilidade do papel moeda emitido por eles em ouro. Esse mecanismo, chamado de padr\u00e3o ouro, tinha duas vantagens principais. A primeira era garantir que bancos centrais n\u00e3o poderiam emitir papel moeda indiscriminadamente para cobrir gastos p\u00fablicos, impondo indiretamente disciplina fiscal aos governos. A segunda \u00e9 que o ouro funcionava como uma moeda de troca internacional. Como as moedas dos principais pa\u00edses eram convers\u00edveis em ouro a uma taxa fixa, as taxas de c\u00e2mbio entre essas moedas tamb\u00e9m eram fixas. Nesse sistema, n\u00e3o era necess\u00e1ria confian\u00e7a nos bancos centrais e os pre\u00e7os negociados nas importa\u00e7\u00f5es e exporta\u00e7\u00f5es eram, na pr\u00e1tica, determinados em ouro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sob o padr\u00e3o ouro, governos e bancos centrais cometiam excessos ocasionais, suspendendo a conversibilidade de seu papel moeda em momentos de d\u00e9ficit fiscal que fragilizavam a posi\u00e7\u00e3o das reservas de ouro realmente dispon\u00edveis nos cofres dos bancos centrais. A prova de fogo veio durante a primeira guerra mundial, per\u00edodo em que v\u00e1rios pa\u00edses financiaram as despesas de guerra com moeda impressa sem o lastro em ouro adequado e suspenderam a conversibilidade de suas moedas unilateralmente. Como consequ\u00eancia inevit\u00e1vel, esse movimento causou forte alta da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As d\u00e9cadas subsequentes \u00e0 primeira guerra foram marcadas pela instabilidade do sistema monet\u00e1rio internacional, com v\u00e1rios pa\u00edses oscilando entre a ado\u00e7\u00e3o e o abandono do padr\u00e3o ouro. A emiss\u00e3o exagerada de moeda sem lastro causava crises de confian\u00e7a nas moedas que, por sua vez, causava corridas banc\u00e1rias em busca do direito de convers\u00e3o de papel moeda em barras de ouro. Quando isso acontecia e os bancos centrais se encontravam sem reservas suficientes para satisfazer os saques de ouro em esp\u00e9cie, o direito de conversibilidade era suspendido, contribuindo mais ainda para a desconfian\u00e7a em torno dos bancos centrais como guardi\u00f5es do valor de suas moedas. Esse clima de instabilidade permaneceu at\u00e9 1944, quando foi assinado o acordo de Bretton Woods.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bretton Woods (1944-1973)<\/h2>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos, j\u00e1 tendo conquistado sua posi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia mundial no p\u00f3s-guerra e detentor de dois ter\u00e7os das reservas mundiais de ouro \u00e0 \u00e9poca, liderou a negocia\u00e7\u00e3o de um novo sistema monet\u00e1rio internacional para regular as rela\u00e7\u00f5es comerciais entre 44 pa\u00edses. Sob esse acordo, o banco central de cada pa\u00eds deveria garantir a conversibilidade de suas moedas em d\u00f3lares americanos a taxas fixas e o d\u00f3lar seria convers\u00edvel em ouro \u00e0 taxa fixa de USD 35 por on\u00e7a. Na pr\u00e1tica, foi um retorno ao padr\u00e3o ouro tendo o d\u00f3lar americano como uma moeda intermedi\u00e1ria, com os Estados Unidos na posi\u00e7\u00e3o privilegiada de emissor da moeda que serviria como reserva de valor internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande motiva\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s do acordo, que garantiu a ader\u00eancia de diversos pa\u00edses e o sustentou por um per\u00edodo longo, era a compreens\u00e3o de que um com\u00e9rcio internacional flu\u00eddo era essencial para manter a paz mundial. Essa li\u00e7\u00e3o havia sido aprendida nas duas grandes guerras, ambas motivadas por conflitos econ\u00f4micos amplificados por medidas protecionistas vistas como desleais pelos pa\u00edses impedidos de acessarem certos mercados. Por sua vez, para que existisse um com\u00e9rcio internacional din\u00e2mico, era necess\u00e1rio um sistema organizado e est\u00e1vel de convers\u00e3o entre diferentes moedas. O sistema monet\u00e1rio internacional criado pelo Acordo de Bretton Woods atingiu esse objetivo, oferecendo certa prote\u00e7\u00e3o contra manipula\u00e7\u00f5es do valor das moedas por parte dos bancos centrais, uma das ferramentas tradicionalmente utilizadas para manipular fluxos de exporta\u00e7\u00f5es e importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O Acordo de Bretton Woods permaneceu em vigor por algumas d\u00e9cadas, mas come\u00e7ou a apresentar sinais de fraqueza ao final dos anos 60. No p\u00f3s-guerra, os Estados Unidos mantiveram uma balan\u00e7a comercial continuamente deficit\u00e1ria, em grande parte devido a financiamentos aos pa\u00edses aliados e a\u00e7\u00f5es militares americanas ao redor do mundo. Para manter esse d\u00e9ficit, o banco central americano imprimia mais e mais d\u00f3lares, apesar da obriga\u00e7\u00e3o de conversibilidade em ouro fixada pelo acordo de Bretton Woods. Em 1970, as reservas de ouro americanas eram suficientes para honrar a convers\u00e3o de apenas 22% dos d\u00f3lares em circula\u00e7\u00e3o no mundo, estimulando que a busca pela convers\u00e3o de d\u00f3lares em ouro se intensificasse. Como resposta a esse movimento, que tornaria a conversibilidade insustent\u00e1vel logo mais, em 1971, o presidente americano Richard Nixon anunciou unilateralmente o abandono do padr\u00e3o ouro. A partir de ent\u00e3o, o banco central americano n\u00e3o converteria mais d\u00f3lares em ouro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Regime de c\u00e2mbio flutuante<\/h2>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o rompimento da conversibilidade em ouro pelos Estados Unidos, houve alguma tentativa de retomada a um sistema de c\u00e2mbio fixo baseado no padr\u00e3o ouro, mas n\u00e3o foram esfor\u00e7os bem-sucedidos. Em 1973, o Jap\u00e3o e pa\u00edses europeus decidiram adotar o regime de c\u00e2mbio flutuante, em que o valor de suas moedas seria determinado livremente pela oferta e demanda. O fim do Acordo de Bretton Woods foi oficializado em 1976 e, nos anos seguintes, a maior parte das na\u00e7\u00f5es desenvolvidas adotou o regime de c\u00e2mbio flutuante. O Brasil ainda demorou algum tempo at\u00e9 se adequar ao novo padr\u00e3o. Adotou o c\u00e2mbio flutuante apenas a partir de 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o de qual \u00e9 o melhor sistema monet\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 trivial. No padr\u00e3o ouro, a premissa fundante \u00e9 que as reservas de ouro de todo o mundo estabeleceriam quanto de moeda est\u00e1 dispon\u00edvel para as atividades econ\u00f4micas. Como o ouro \u00e9 finito, se a economia mundial crescesse a um ritmo mais alto do que a expans\u00e3o das reservas de ouro, o resultado seria defla\u00e7\u00e3o, pois ter\u00edamos uma maior quantidade de bens materiais produzidos pela economia global sendo representada pela mesma quantidade de ouro. Isso levaria a uma constante valoriza\u00e7\u00e3o do ouro, o que n\u00e3o faz sentido per se.<\/p>\n\n\n\n<p>Cerca de metade do ouro existente no mundo hoje est\u00e1 em joias e objetos decorativos e cerca de um quarto em barras e moedas. Menos de um quinto est\u00e1 em reservas oficiais de valor. Se o ouro fosse constantemente valorizado n\u00e3o pelo valor atribu\u00eddo ao metal em si, mas por seu uso como lastro de moedas, a consequ\u00eancia inevit\u00e1vel \u00e9 que o valor do ouro, em algum momento, seria maior do que sua utilidade real para as pessoas e deixar\u00edamos de usar o ouro para estes fins, passando a simplesmente armazen\u00e1-lo em cofres de bancos centrais, para que barras e mais barras de ouro ficassem l\u00e1 paradas, com todo o custo da seguran\u00e7a necess\u00e1ria para mant\u00ea-las seguras.<\/p>\n\n\n\n<p>No regime de c\u00e2mbio flutuante, a premissa \u00e9 que o lastro de valor da moeda de um pa\u00eds \u00e9 composto pelos ativos existentes em sua economia interna. Apesar de ser mais dif\u00edcil de mensurar do que a quantidade de ouro nos cofres do Banco Central, faz sentido que a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de um pa\u00eds tenha valor per se, independentemente da quantidade de ouro que o pa\u00eds possua. O ponto \u00e9 facilmente compreendido imaginando um pa\u00eds que tenha imensas reservas de petr\u00f3leo, mas nada de ouro. Impossibilitar esse pa\u00eds de emitir moeda pela aus\u00eancia de ouro em seus cofres \u00e9 contra o senso comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, permanece o problema de como determinar o valor da moeda emitida por um Banco Central que tem o poder de imprimir moeda indiscriminadamente. A solu\u00e7\u00e3o desse regime \u00e9 deixar a precifica\u00e7\u00e3o a cargo do mercado. Da mesma forma que o pre\u00e7o de uma mercadoria qualquer \u00e9 definida pelo equil\u00edbrio moment\u00e2neo entre oferta e demanda, motivadas por qualquer fator que seja, o pre\u00e7o do c\u00e2mbio tamb\u00e9m passa a ser definido da mesma forma. Indiretamente, o valor de uma moeda depende da robustez da economia de seu pa\u00eds, dos resultados de seu balan\u00e7o de com\u00e9rcio internacional e das contas p\u00fablicas de seu governo, j\u00e1 que os principais ativos mantidos em reservas de estrangeiros tipicamente s\u00e3o t\u00edtulos p\u00fablicos de renda fixa. Apesar de ser menos objetivo que o regime de c\u00e2mbio fixo lastreado em ouro, esse modelo de precifica\u00e7\u00e3o flutuante \u00e9 o padr\u00e3o no capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Impacto do sistema sobre investimentos<\/h2>\n\n\n\n<p>O primeiro ponto de aten\u00e7\u00e3o a considerar \u00e9 que em qualquer investimento internacional, haver\u00e1 o risco de oscila\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio. No curto prazo, a taxa pode oscilar sem qualquer justificativa derivada dos fundamentos. Um desbalan\u00e7o moment\u00e2neo nas contas de com\u00e9rcio internacional, problemas em outras economias que exijam repatria\u00e7\u00e3o de recursos ou simplesmente movimentos especulativos em torno da moeda podem causar varia\u00e7\u00f5es na taxa de c\u00e2mbio. Com isso, h\u00e1 sempre certa aleatoriedade em torno do risco cambial.<\/p>\n\n\n\n<p>No longo prazo, as moedas deveriam manter certa rela\u00e7\u00e3o de paridade, com as taxas de c\u00e2mbio variando em fun\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a de infla\u00e7\u00e3o em cada moeda. O conceito base \u00e9 que a taxa de c\u00e2mbio deve ser definida pelo poder de compra real das moedas, pois, se fosse poss\u00edvel comprar uma barra de ouro na moeda A e vender na moeda B e taxa de c\u00e2mbio entre esse par possibilitasse a gera\u00e7\u00e3o de lucro, isso representaria uma oportunidade de arbitragem que seria explorada por investidores at\u00e9 que o fluxo de convers\u00e3o de moeda B em moeda A fosse suficiente para reequilibrar a taxa de c\u00e2mbio para o ponto neutro. Com a infla\u00e7\u00e3o sendo a medida quantitativa de quanto cada moeda se desvaloriza, se a moeda A sofre infla\u00e7\u00e3o enquanto a B n\u00e3o, a taxa de c\u00e2mbio precisa se alterar de modo que seja necess\u00e1rio mais da moeda A para comprar uma mesma quantidade de B.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o de paridade n\u00e3o resolve o problema de proje\u00e7\u00e3o de taxa de c\u00e2mbio porque resta a tarefa de projetar os n\u00edveis de infla\u00e7\u00e3o para os dois pa\u00edses do par de moedas. A estimativa \u00e9 dif\u00edcil porque a infla\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds depende fortemente da quantidade de moeda emitida por seu Banco Central, que por sua vez, tem forte rela\u00e7\u00e3o com o balan\u00e7o fiscal do pa\u00eds (arrecada\u00e7\u00f5es do governo subtra\u00eddas de seus gastos). Como n\u00f3s, brasileiros, bem sabemos, o n\u00edvel de gastos de um pa\u00eds \u00e9 muito influenciado por quest\u00f5es pol\u00edticas dif\u00edceis de se prever.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da dificuldade nas proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o, taxas de c\u00e2mbio podem passar anos fora do ponto de equil\u00edbrio te\u00f3rico determinado pela rela\u00e7\u00e3o de paridade que considera os diferenciais de infla\u00e7\u00e3o, da mesma forma que uma a\u00e7\u00e3o pode passar anos com um pre\u00e7o distante de seu valor justo. Assim, investimentos no exterior adicionam uma camada extra de risco: al\u00e9m da oscila\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o de um ativo, h\u00e1 a oscila\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio. Com isso, o momento ideal de venda de um ativo no exterior pode n\u00e3o coincidir com o melhor momento para repatriar o capital, ou seja, converter o valor da venda em moeda estrangeira de volta para reais brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha que resta aos investidores \u00e9 aceitar esse risco como um aumento da volatilidade de pre\u00e7o dos investimentos estrangeiros na moeda local ou realizar contratos de compra ou venda de c\u00e2mbio na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria do fluxo do investimento para neutralizar o efeito da oscila\u00e7\u00e3o da moeda (hedge), arranjo que, na pr\u00e1tica, implica em pagar uma pequena taxa para se proteger contra a varia\u00e7\u00e3o cambial.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a tese de investimentos n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o nenhuma com a taxa de c\u00e2mbio, geralmente a melhor op\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer a opera\u00e7\u00e3o de hedge e inserir o custo extra na margem de seguran\u00e7a exigida no pre\u00e7o de compra. \u00c9 o que faremos no caso de nosso investimento na Inglaterra, que mencionamos no in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group has-pureza-background-color has-background has-global-padding is-layout-constrained wp-container-core-group-is-layout-95339512 wp-block-group-is-layout-constrained\" style=\"padding-top:24px;padding-right:24px;padding-bottom:24px;padding-left:24px\">\n\n<p class=\"has-noite-color has-text-color has-link-color has-merriweather-font-family wp-elements-4bb82043e033eff70a99906c78a76a84\" style=\"font-size:18px;font-style:normal;font-weight:400;letter-spacing:0px;line-height:1.8\">\n  <em>Check out the comments from Ivan Barboza, manager of \u00c1rtica Long Term FIA, on this month&#039;s letter in <a href=\"https:\/\/youtube.com\/wXBOzPYUIM4\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">YouTube<\/a> or not <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/2wRTZfp00ZifoxByv8Khcn\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Spotify<\/a>.<\/em>\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caros investidores, Dinheiro \u00e9 algo t\u00e3o cotidiano que pode passar despercebido qu\u00e3o engenhosa \u00e9 sua natureza. 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