{"id":5607,"date":"2025-03-10T18:01:06","date_gmt":"2025-03-10T21:01:06","guid":{"rendered":"https:\/\/hml.artica.capital\/asset-cartas\/pax-americana\/"},"modified":"2025-03-10T18:01:06","modified_gmt":"2025-03-10T21:01:06","slug":"pax-americana","status":"publish","type":"cartas","link":"https:\/\/hml.artica.capital\/en\/asset-cartas\/pax-americana\/","title":{"rendered":"Pax Americana"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-group has-global-padding is-layout-constrained wp-container-core-group-is-layout-eb5bab19 wp-block-group-is-layout-constrained\">\n\n<div class=\"wp-block-columns artica-content-spaces is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:40%\">\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: #Carta Mar\u00e7o\/25 - Pax Americana\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"624\" height=\"351\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/7itF9ysMPfLQU59McZRacX\/video?utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n<\/div>\n\n<\/div>\n\n<\/div>\n\n\n\n<p>Dear investors,<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 20 de janeiro, Trump assumiu seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos e deu in\u00edcio a um choque de gest\u00e3o que est\u00e1 agitando o mundo. A aten\u00e7\u00e3o \u00e9 bem justificada. O produto interno bruto (PIB) americano representa ~25% do PIB global, os Estados Unidos s\u00e3o o maior importador do mundo (U$ 3 trilh\u00f5es), o segundo maior exportador (U$ 2 trilh\u00f5es) e 58% das reservas em moeda estrangeira s\u00e3o mantidas em d\u00f3lares. Al\u00e9m da relev\u00e2ncia econ\u00f4mica, \u00e9 o l\u00edder pol\u00edtico do Ocidente e a maior pot\u00eancia militar do planeta, respons\u00e1vel por ~38% dos gastos globais com defesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump assinou mais de 70 executive orders em seus primeiros 45 dias de mandato. A an\u00e1lise do impacto desse conjunto de a\u00e7\u00f5es \u00e9 bastante complexa, por sua amplitude e porque diversas ordens podem se manter em vigor apenas temporariamente. O melhor que podemos fazer \u00e9 buscar entender a linha filos\u00f3fica por tr\u00e1s dessas a\u00e7\u00f5es, imaginar a quais cen\u00e1rios essa filosofia provavelmente ir\u00e1 nos levar e investigar quais riscos podem surgir para nossos investimentos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Contexto hist\u00f3rico<\/h2>\n\n\n\n<p>A geopol\u00edtica global com que estamos acostumados foi desenhada ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, quando emergiu a disputa ideol\u00f3gica entre os pa\u00edses capitalistas e os pa\u00edses comunistas revolucion\u00e1rios. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se tornou uma superpot\u00eancia militar e ambicionava converter todo o mundo ao seu modelo pol\u00edtico, militarmente ou apoiando revolu\u00e7\u00f5es comunistas em pa\u00edses vulner\u00e1veis. Para fazer frente a esse plano, o Ocidente criou um grande bloco de pa\u00edses aliados que cooperariam economicamente e militarmente para defender o \u201cmundo livre\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na esfera econ\u00f4mica, os custos da guerra haviam for\u00e7ado a maior parte dos pa\u00edses a abandonar a conversibilidade de suas moedas em ouro, o que desorganizou as finan\u00e7as e o com\u00e9rcio internacional. A solu\u00e7\u00e3o foi o Acordo de Bretton Woods, firmado em 1944, que criou um novo sistema monet\u00e1rio internacional em que o d\u00f3lar americano seria a moeda de refer\u00eancia e manteria sua conversibilidade em ouro. As demais moedas teriam uma taxa de c\u00e2mbio fixa em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar, ajust\u00e1vel apenas em casos de desequil\u00edbrio. O Acordo tamb\u00e9m criou o FMI e o Banco Mundial, com a miss\u00e3o de apoiar a reconstru\u00e7\u00e3o p\u00f3s-guerra e o desenvolvimento dos pa\u00edses mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1945, foi criada a ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), com o objetivo de promover a paz e a seguran\u00e7a internacional, fomentar a coopera\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento econ\u00f4mico, social e humanit\u00e1rio e defender os direitos humanos e liberdades fundamentais. Originalmente, 51 pa\u00edses eram membros. Hoje, a ONU tem 193 membros e continua atuando como um grande f\u00f3rum multilateral para discuss\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os que extrapolam fronteiras nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na esfera militar, a principal preocupa\u00e7\u00e3o era evitar o avan\u00e7o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sobre a Europa, fragilizada pelas guerras e dividida entre v\u00e1rios pa\u00edses bem menores do que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A estrat\u00e9gia de defesa foi a cria\u00e7\u00e3o da OTAN (Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte) em 1949, um tratado militar em que os pa\u00edses aliados colaborariam para proteger qualquer pa\u00eds do bloco que fosse atacado. Apesar das diferen\u00e7as entre o poderio militar dos pa\u00edses membros, a OTAN adotou o princ\u00edpio de que a soberania de cada pa\u00eds seria respeitada e as principais decis\u00f5es seriam tomadas por consenso, de modo que nenhum pa\u00eds seria obrigado a agir contra a sua vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos esses acordos foram negociados sob forte influ\u00eancia americana, pois a Europa estava endividada pelos custos da guerra, com a \u00e1rdua miss\u00e3o de reconstruir sua infraestrutura e sem condi\u00e7\u00f5es de investir pesadamente em defesa e desenvolvimento. Os Estados Unidos, muito menos afetados pela Segunda Guerra e j\u00e1 a maior economia mundial, assumiram a maior parte do \u00f4nus de proteger e desenvolver o Ocidente. Com sua marinha, passaram a garantir a seguran\u00e7a das rotas mar\u00edtimas do mundo todo para permitir o crecimento do com\u00e9rcio internacional (antes da segunda guerra, navios cargueiros corriam o risco de serem atacados por piratas ou pela marinha de pa\u00edses rivais) e se envolveram em guerras muito distantes de seu territ\u00f3rio, como as guerras da Cor\u00e9ia e do Vietn\u00e3, para impedir o avan\u00e7o do bloco comunista. A contrapartida por todas essas iniciativas, custada pelos Estados Unidos e ben\u00e9fica a todos os pa\u00edses aliados, foi manter o d\u00f3lar como moeda de reserva global, transformando diversos pa\u00edses em credores do governo americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa configura\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m at\u00e9 hoje. Os Estados Unidos ainda arcam com a maior parte do or\u00e7amento militar da OTAN, respons\u00e1veis por ~70% dos gastos de defesa ainda que representem ~50% do PIB total dos pa\u00edses membros, o d\u00f3lar ainda segue como principal moeda de reservas internacionais e as rela\u00e7\u00f5es internacionais entre os pa\u00edses do Ocidente ainda seguem a tradi\u00e7\u00e3o de tomar decis\u00f5es importantes de maneira multilateral.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">De onde vem o \u201cAmerica first\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>O princ\u00edpio base das mudan\u00e7as de pol\u00edtica de Trump \u00e9 o \u201cAmerica first\u201d. Trump alega que os Estados Unidos est\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o desnecessariamente desvantajosa em diversos acordos internacionais, subsidiando outros pa\u00edses nas rela\u00e7\u00f5es comerciais, arcando com gastos de defesa desproporcionalmente altos e patrocinando diversos projetos ao redor do mundo sem contrapartida para os americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer ato pol\u00edtico de alto impacto tende a ter ra\u00edzes mais profundas do que aparenta nas coletivas de imprensa. H\u00e1 equipes enormes de pol\u00edticos e t\u00e9cnicos discutindo o melhor curso de a\u00e7\u00e3o, sob seu ponto de vista, antes de que as conclus\u00f5es desse processo interno cheguem ao p\u00fablico atrav\u00e9s do l\u00edder pol\u00edtico que atua como porta voz do grupo. Sabendo disso, qual an\u00e1lise poderia resultar no princ\u00edpio \u201cAmerica first\u201d? Uma possibilidade \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o de que a ordem geopol\u00edtica desenhada ap\u00f3s a Segunda Guerra n\u00e3o \u00e9 mais adequada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a Guerra Fria, a grande quest\u00e3o era qual modelo econ\u00f4mico e social prevaleceria no mundo. Se os Estados Unidos deixassem de ajudar a Europa e os pa\u00edses subdesenvolvidos, eles estariam vulner\u00e1veis \u00e0 influ\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Se o comunismo se espalhasse por todo o mundo, em algum momento o bloco comunista se tornaria militarmente superior a Am\u00e9rica e a dominaria. Sob essa amea\u00e7a, sustentar a defesa militar do Ocidente e oferecer aux\u00edlios aos pa\u00edses subdesenvolvidos n\u00e3o era um ato de altru\u00edsmo americano, era uma estrat\u00e9gia de autopreserva\u00e7\u00e3o. Hoje, o cen\u00e1rio \u00e9 bem diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, n\u00e3o h\u00e1 mais disputa em rela\u00e7\u00e3o a qual modelo econ\u00f4mico \u00e9 superior. A pr\u00f3pria R\u00fassia abriu sua economia e adotou din\u00e2micas de mercado semelhantes \u00e0s do capitalismo Ocidental. N\u00e3o existe mais o apelo popular que a promessa comunista de prosperidade a todos carregava. A principal diferen\u00e7a atual \u00e9 no modelo pol\u00edtico: enquanto o Ocidente se mant\u00e9m predominantemente democr\u00e1tico, a R\u00fassia e a China, a nova superpot\u00eancia oriental, s\u00e3o governadas por regimes autorit\u00e1rios legados da revolu\u00e7\u00e3o feita sob a promessa comunista.<\/p>\n\n\n\n<p>O modelo de governo autorit\u00e1rio tem um potencial bem menor de se disseminar via apoio popular e a expans\u00e3o militar hoje \u00e9 improv\u00e1vel em territ\u00f3rios muito estrat\u00e9gicos devido \u00e0 exist\u00eancia de arsenais nucleares, que criaram a din\u00e2mica da Destrui\u00e7\u00e3o M\u00fatua Garantida: se uma pot\u00eancia nuclear atacar outra pot\u00eancia nuclear com bombas at\u00f4micas ou com agressividade exagerada, o ato desencadearia uma guerra nuclear que levaria \u00e0 aniquila\u00e7\u00e3o de ambos os lados. A possibilidade desse desfecho catastr\u00f3fico age como uma barreira para grandes conflitos entre as superpot\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, o estilo de vida ocidental nos parece bem menos amea\u00e7ado pelas pot\u00eancias orientais. Essa interpreta\u00e7\u00e3o e o fato de que os Estados Unidos t\u00eam hoje U$ 36 trilh\u00f5es em d\u00edvida p\u00fablica podem ter levado os Republicanos a questionarem se faz sentido manter as pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o militar e subs\u00eddios oferecidos a outros pa\u00edses desde a Guerra Fria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Principais a\u00e7\u00f5es do governo Trump na economia<\/h2>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos hoje t\u00eam um problema fiscal. Em 2024, o d\u00e9ficit fiscal americano foi de US$ 1,8 trilh\u00f5es, equivalente a 6,4% do PIB, e a d\u00edvida americana de US$ 36 trilh\u00f5es equivale a 124% do PIB (em compara\u00e7\u00e3o, o Brasil teve d\u00e9ficit fiscal de 8,4% em 2024 e terminou o ano com uma d\u00edvida de 76% do PIB). A situa\u00e7\u00e3o fiscal americana vem piorando velozmente desde a crise do subprime em 2008. Antes disso, ao final de 2007, a d\u00edvida americana era de 63% do PIB. Quase metade do patamar atual. Com isso, h\u00e1 discuss\u00f5es sobre a sustentabilidade do d\u00f3lar como moeda de reserva global.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta do governo Trump foi um plano de redu\u00e7\u00e3o de gastos p\u00fablicos, atrav\u00e9s do Department of Goverment Efficiency (DOGE \u2013 aos interessados, gravamos uma discuss\u00e3o sobre o tema, dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/youtu.be\/pCM3e6j8a_U\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">neste link<\/a>) e a prioriza\u00e7\u00e3o do desenvolvimento econ\u00f4mico americano, com projetos de desregulamenta\u00e7\u00e3o e abandono de pautas ambientais. Um exemplo ilustrativo \u00e9 a volta de incentivos \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis fosseis para baratear a energia americana, divulgada por Trump sob o mantra \u201cdrill, baby, drill\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No comercio internacional, os Estado Unidos divulgaram que aumentar\u00e3o as taxas de importa\u00e7\u00e3o de diversos pa\u00edses, sob dois princ\u00edpios. O primeiro \u00e9 o de reciprocidade, com as taxas de importa\u00e7\u00e3o americanas sendo equiparadas \u00e0s taxas que os outros pa\u00edses cobram na importa\u00e7\u00e3o de produtos americanos. O segundo \u00e9 o uso de taxas como instrumento de press\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, como no caso dos pa\u00edses que se recusaram a receber de volta imigrantes ilegais deportados dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o das taxas \u00e9 bastante delicada. Ao mesmo tempo que diversos pa\u00edses denunciam essa medida como protecionista, quase todos adotam medidas semelhantes. Nos casos em que o aumento de taxa \u00e9 baseado em reciprocidade, entendemos que a argumenta\u00e7\u00e3o do porque o desequil\u00edbrio deveria continuar \u00e9 dif\u00edcil. H\u00e1 tr\u00eas cen\u00e1rios poss\u00edveis para cada rela\u00e7\u00e3o bilateral.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro \u00e9 que o pa\u00eds afetado simplesmente aceite a nova taxa e adapte suas rela\u00e7\u00f5es comerciais com os Estados Unidos \u00e0 nova realidade. Nesse caso, a infla\u00e7\u00e3o americana aumentaria juntamente com a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos do governo federal. Na proposta de Trump, esse aumento de arrecada\u00e7\u00e3o deveria ser usado para reduzir a d\u00edvida p\u00fablica e, posteriormente, para diminuir a carga tribut\u00e1ria americana. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, o resultado poderia ser o deslocamento da fonte de arrecada\u00e7\u00e3o de impostos para tarifas e um maior protecionismo da ind\u00fastria americana.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo \u00e9 que o pa\u00eds afetado negocie com os Estados Unidos uma redu\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias taxas de importa\u00e7\u00e3o para evitar que suas exporta\u00e7\u00f5es sejam afetadas pelo aumento das tarifas dos Estados Unidos. Isso tenderia a aumentar as exporta\u00e7\u00f5es americanas para esse parceiro comercial e, assim, estimular a ind\u00fastria dom\u00e9stica. A arrecada\u00e7\u00e3o americana aumentaria devido ao crescimento do volume de exporta\u00e7\u00f5es, mas o impacto tende a ser mais limitado.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro cen\u00e1rio \u00e9 que os Estados Unidos e o pa\u00eds afetado entrem em uma guerra comercial e escalem as taxas at\u00e9 um patamar mais alto do que o praticado por ambos os pa\u00edses atualmente. Isso levaria a uma redu\u00e7\u00e3o do fluxo bilateral de com\u00e9rcio exterior e tenderia a prejudicar ambos os pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado final da pol\u00edtica de tarifas de Trump \u00e9 imposs\u00edvel de prever porque depende da resposta de cada pa\u00eds. Acreditamos que os primeiros dois cen\u00e1rios sejam mais prov\u00e1veis que o terceiro, pois guerras comerciais, por serem prejudiciais para ambos os lados, tendem a ser tempor\u00e1rias e terminar com a negocia\u00e7\u00e3o de algum acordo mais ben\u00e9fico.<\/p>\n\n\n\n<p>De modo geral, o que temos enxergado nas a\u00e7\u00f5es recentes do governo Trump \u00e9 um pragmatismo bem conhecido no mundo dos neg\u00f3cios. H\u00e1 bastante ru\u00eddo nos an\u00fancios, particularmente ampliados pelo estilo de Trump, mas nos parece que a estrat\u00e9gia \u00e9 vasculhar os principais acordos vigentes em busca de pontos em que seja poss\u00edvel melhorar algum termo. \u00c9 prov\u00e1vel que esses esfor\u00e7os rendam frutos, mesmo que abaixo do esperado, e que o impacto final para a economia americana seja positivo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mudan\u00e7a da estrat\u00e9gia geopol\u00edtica<\/h2>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos 80 anos, desde os tratados desenhados no p\u00f3s-guerra, os Estado Unidos vinham liderando o Ocidente sob a din\u00e2mica de negocia\u00e7\u00f5es multilaterais e colabora\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses aliados. Agora, o governo Trump parece estar rompendo com essa tradi\u00e7\u00e3o e perseguindo estrat\u00e9gias unilaterais que priorizam os interesses americanos em detrimento de uma vis\u00e3o de mundo compartilhada com os pa\u00edses aliados.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema central nessa esfera \u00e9 a guerra entre a Ucr\u00e2nia e R\u00fassia. Desde seu in\u00edcio em 2022, a postura dos pa\u00edses membros da OTAN foi de apoio s\u00f3lido \u00e0 Ucr\u00e2nia. N\u00e3o chegaram a enviar combatentes pr\u00f3prios, para evitar que o conflito escalasse para o que poderia se tornar a terceira guerra mundial, mas financiaram a guerra e enviaram equipamentos militares que permitiram que a Ucr\u00e2nia resista \u00e0 R\u00fassia at\u00e9 hoje. A principal raz\u00e3o para esse apoio \u00e9 n\u00e3o permitir que exista um precedente de expans\u00e3o territorial sobre a Europa via a\u00e7\u00e3o militar, o que poderia levar a R\u00fassia a avan\u00e7ar sobre territ\u00f3rios adicionais no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump chega com uma interpreta\u00e7\u00e3o diferente. Entende que os Estados Unidos est\u00e3o financiando uma guerra muito distante de seu territ\u00f3rio, sem benef\u00edcios imediatos para os americanos, e que a melhor solu\u00e7\u00e3o \u00e9 negociar o fim da guerra, mesmo que o princ\u00edpio de n\u00e3o permitir nenhuma expans\u00e3o territorial por via militar n\u00e3o seja plenamente preservado. A Ucr\u00e2nia, e os pa\u00edses europeus em geral, acusam os Estados Unidos de tra\u00edrem o acordo de defesa m\u00fatua da OTAN, e o governo Trump retruca que os aliados est\u00e3o abusando do apoio desproporcional dos Estados Unidos para prolongar uma guerra que n\u00e3o \u00e9 interessante do ponto de vista econ\u00f4mico e humanit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos tamb\u00e9m est\u00e3o se distanciando do bloco Europeu em outros temas: se retiraram da OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade), se retiraram do Acordo de Paris (combate ao aquecimento global) e criticaram duramente as pol\u00edticas de imigra\u00e7\u00e3o adotadas pela Europa nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A rota que parece estar sendo tra\u00e7ada pelo governo Trump deve impulsionar o desenvolvimento da economia dom\u00e9stica dos Estados Unidos e melhorar seu balan\u00e7o fiscal, mas deve tamb\u00e9m abalar as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com a Europa, ao menos em um primeiro momento. \u00c9 imprevis\u00edvel como essas rela\u00e7\u00f5es evoluir\u00e3o. Se a Europa eleger predominantemente governos de direita em suas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, pode ser que ocorra um realinhamento dos pa\u00edses Europeus com os Estados Unidos. Do contr\u00e1rio, pode ser que a Europa se torne um bloco menos alinhado por um prazo mais longo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m um tom expansionista nas declara\u00e7\u00f5es de Trump. Alguns atos s\u00e3o meramente simb\u00f3licos, como renomear o Golfo do M\u00e9xico para Golfo da Am\u00e9rica, mas as ideias de incorporar o Canad\u00e1, a Groenl\u00e2ndia e retomar o controle do Canal do Panam\u00e1, sinalizam inten\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas de expandir, se n\u00e3o o territ\u00f3rio americano, ao menos a zona sob forte influ\u00eancia dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A inten\u00e7\u00e3o pode parecer estranha nos tempos modernos, mas esse \u00edmpeto expansionista \u00e9 o comportamento padr\u00e3o de imp\u00e9rios ao longo da hist\u00f3ria. O Imp\u00e9rio Maced\u00f4nico, de Alexandre, o Grande, nasceu na Gr\u00e9cia e se expandiu at\u00e9 o noroeste da \u00cdndia (e s\u00f3 parou devido \u00e0 morte prematura de Alexandre, por doen\u00e7a). O Imp\u00e9rio Romano nasceu na atual It\u00e1lia e chegou a dominar quase toda a Europa e os demais territ\u00f3rios que margeiam o Mar Mediterr\u00e2neo. O Imp\u00e9rio Mongol, de Genghis Khan, nasceu na Mong\u00f3lia e chegou a dominar quase toda a \u00c1sia. Portugal e Espanha lan\u00e7aram as grandes navega\u00e7\u00f5es para expandir seus territ\u00f3rios para terras al\u00e9m do oceano Atl\u00e2ntico. O Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, em seu auge, chegou a ter mais de 70 col\u00f4nias. A China e a R\u00fassia atuais tamb\u00e9m se comportam como imp\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A geopol\u00edtica multilateral estabelecida ap\u00f3s a segunda guerra e seguida pelos Estados Unidos at\u00e9 ent\u00e3o \u00e9 que constitui uma exce\u00e7\u00e3o na linha hist\u00f3rica mais longa. N\u00e3o seria surpreendente se os Estados Unidos passassem a exercer seu poder e influ\u00eancia de maneira mais ostensiva, como fizeram os imp\u00e9rios do passado e ainda fazem os outros imp\u00e9rios atuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que essa seja a rota adotada, ainda assim \u00e9 dif\u00edcil prever se os resultados ser\u00e3o bons ou ruins para o mundo. J\u00e1 houve imp\u00e9rios tir\u00e2nicos e imp\u00e9rios virtuosos. H\u00e1 tamb\u00e9m o fato de que, no mundo democr\u00e1tico moderno, tudo pode mudar nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como o Brasil pode ser afetado<\/h2>\n\n\n\n<p>Nosso pa\u00eds \u00e9 um coadjuvante na geopol\u00edtica global. N\u00e3o estamos envolvidos em conflitos militares. N\u00e3o participamos de corridas tecnol\u00f3gicas. Somos apenas um grande pa\u00eds exportador de commodities, com um povo pac\u00edfico e sempre ocupado com seus pr\u00f3prios problemas internos. Certamente n\u00e3o somos uma amea\u00e7a para os Estados Unidos e n\u00e3o devemos ocupar a lista de prioridades estrat\u00e9gicas na agenda americana.<\/p>\n\n\n\n<p>Das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, 12,0% s\u00e3o feitas para os Estados Unidos, enquanto 28,5% v\u00e3o para a China, nosso principal parceiro comercial. Das importa\u00e7\u00f5es, 15,5% v\u00eam dos Estados Unidos e 24,6% v\u00eam da China. Al\u00e9m disso, o com\u00e9rcio exterior representa apenas 25-30% do PIB Brasileiro, comparado a uma m\u00e9dia global de 50-60%. Ou seja, o impacto do eventual aumento das tarifas americanas n\u00e3o seria catastr\u00f3fico para o Brasil. Sequer est\u00e1 claro se seremos alvo de alguma medida de protecionismo americano, pois as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para os Estados Unidos s\u00e3o predominantemente de commodities minerais e agr\u00edcolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Caso as rela\u00e7\u00f5es dos demais pa\u00edses com os Estados unidos se deteriorem, pode ser que o efeito para o Brasil seja positivo. Se, por exemplo, os Estados Unidos e a China entrarem em guerra comercial, uma parcela das exporta\u00e7\u00f5es chinesas seria redirecionada dos americanos para outros parceiros comerciais, fazendo com que os pre\u00e7os oferecidos ao restante do mundo diminuam, enquanto a infla\u00e7\u00e3o americana aumentaria. A China tamb\u00e9m poderia decidir comprar produtos que hoje vem dos Estados Unidos de outros pa\u00edses. Por exemplo, a China compra ~US$ 15 bilh\u00f5es de soja dos Estados Unidos anualmente. Parte dessa demanda poderia passar a ser atendida pelo Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro efeito poderia ser o enfraquecimento do d\u00f3lar devido \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das reservas internacionais em d\u00f3lares mantidas por outros pa\u00edses. Hoje, cerca de 30% dos d\u00f3lares emitidos est\u00e3o em reservas internacionais, ent\u00e3o essa eventual redu\u00e7\u00e3o poderia causar impacto relevante nas taxas de c\u00e2mbio. Alguns pa\u00edses j\u00e1 est\u00e3o aumentando suas reservas em ouro, motivados por essas quest\u00f5es geopol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m um potencial impacto indireto das novas pol\u00edticas americanas. Se a austeridade fiscal que est\u00e1 sendo implementada l\u00e1 trouxer resultados positivos para os Estados Unidos, o caso pode se tornar um exemplo para outros pa\u00edses que enfrentam o mesmo problema de d\u00e9ficit fiscal e d\u00edvida crescente. Sob pena de ser mais uma esperan\u00e7a v\u00e3, quem sabe o governo brasileiro eleito em 2026 n\u00e3o implementa seu pr\u00f3prio plano de austeridade e reequil\u00edbrio das contas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Riscos para os investimentos<\/h2>\n\n\n\n<p>O risco mais \u00f3bvio est\u00e1 nas empresas que dependem de exporta\u00e7\u00f5es para os Estados Unidos, pois o eventual aumento de tarifas poderia afetar subitamente o volume exportado. Se as tarifas forem mantidas no longo prazo, haveria a possibilidade de deslocar a produ\u00e7\u00e3o para o territ\u00f3rio americano e evitar os impostos de importa\u00e7\u00e3o, mas provavelmente isso implicaria em aumentos de custos de produ\u00e7\u00e3o e a demanda vindo dos Estados Unidos poderia ser reduzida de toda forma.<\/p>\n\n\n\n<p>Caso o Brasil inicie uma guerra comercial com os Estados Unidos e aumente tarifas de importa\u00e7\u00e3o como forma de retalia\u00e7\u00e3o, empresas dependentes de insumos americanos teriam seus custos aumentados, podendo perder volume de vendas devido ao repasse de pre\u00e7os ou ter que absorver parte desses custos extras, reduzindo suas margens. Guerras comerciais com outros pa\u00edses tamb\u00e9m poderiam prejudicar empresas brasileiras ao redirecionar produtos antes destinados aos Estados Unidos para o Brasil a pre\u00e7os baixos, aumentando a concorr\u00eancia com a ind\u00fastria nacional e pressionando suas margens.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a possibilidade de desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar que comentamos acima, que poderia afetar investimentos denominados em d\u00f3lar e, novamente, empresas que exportem para os Estados Unidos. Note que a din\u00e2mica da queda do d\u00f3lar nesse caso seria diferente do que costumamos observar no Brasil. Geralmente, o enfraquecimento ou fortalecimento do real frente \u00e0s demais moedas \u00e9 que causa a varia\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar para n\u00f3s. No caso do enfraquecimento do d\u00f3lar frente \u00e0s demais moedas, commodities com pre\u00e7os expressos em d\u00f3lar, por exemplo, n\u00e3o necessariamente ficariam mais baratas para o Brasil. Seus pre\u00e7os poderiam subir em d\u00f3lares ao mesmo tempo em que taxa USD\/BRL cairia, neutralizando o efeito pr\u00e1tico. Ou seja, poder\u00edamos n\u00e3o ter benef\u00edcios relevantes com essa queda do d\u00f3lar, al\u00e9m do barateamento das importa\u00e7\u00f5es feitas diretamente dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse risco cambial deve ser considerado com cautela, pois o fortalecimento da economia e do balan\u00e7o fiscal dos Estados Unidos poderia atuar na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria e valorizar o d\u00f3lar. Na eventualidade de ocorrerem turbul\u00eancias geopol\u00edticas, \u00e9 prov\u00e1vel que seu efeito seja mais imediato do que o do fortalecimento econ\u00f4mico, ent\u00e3o poder\u00edamos ver uma desvaloriza\u00e7\u00e3o inicial seguida por uma recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos coment\u00e1rios, nossa filosofia n\u00e3o \u00e9 investir com base em proje\u00e7\u00f5es de cen\u00e1rios complexos. Preferimos evitar as incertezas atreladas a esse grau de complexidade e manter nosso portf\u00f3lio em teses mais simples e assertivas. Hoje, nossas empresas investidas dependem majoritariamente de mercados dom\u00e9sticos e est\u00e3o fora da linha de choque das poss\u00edveis guerras comerciais. Vemos um baixo risco dos nossos investimentos serem prejudicados pelas mudan\u00e7as trazidas pelo governo Trump at\u00e9 este momento.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group has-pureza-background-color has-background has-global-padding is-layout-constrained wp-container-core-group-is-layout-95339512 wp-block-group-is-layout-constrained\" style=\"padding-top:24px;padding-right:24px;padding-bottom:24px;padding-left:24px\">\n\n<p class=\"has-noite-color has-text-color has-link-color has-merriweather-font-family wp-elements-4aabee452c8616708268124f26c7dbf4\" style=\"font-size:18px;font-style:normal;font-weight:400;letter-spacing:0px;line-height:1.8\">\n  <em>Check out the comments from Ivan Barboza, manager of \u00c1rtica Long Term FIA, on this month&#039;s letter in <a href=\"https:\/\/youtube.com\/cmqbmfrYsyE\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">YouTube<\/a> or not <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/7itF9ysMPfLQU59McZRacX\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Spotify<\/a>.<\/em>\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caros investidores, No dia 20 de janeiro, Trump assumiu seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos e deu in\u00edcio a um choque de gest\u00e3o que est\u00e1 agitando o mundo. 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